PEQUENO: adj., de dimensão reduzida; de baixa estatura; que ocupa pouco espaço; limitado; apoucado; acanhado; mesquinho. DELITO: do Lat. delictu; s. m., facto que a lei considera punível; ofensa à moral; crime; atentado; falta; culpa.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
A velha máquina
Quando jovem, dizia muito que pra ela pouco bastava. E sempre foi assim mesmo. Tudo foi pouco e bastou. Cuidar da casa, ficar quietinha e costurar. São três coisas que ela fazia com maestria. Que aprendeu desde cedo e exerceu por muito tempo. E continuaria não fosse uma terrível tragédia.
Naquele dia acordou cedo como de costume, ao receber o toque dos primeiros raios de luz que atravessavam sua cortina amarelada. Foi ao banheiro lavar o rosto, mas desistiu ao sentir o gelo da água. Raspou um restinho de pasta de dente que sobrava na pia. Foi pro quartinho pegar a vassoura. Varreu ouvindo seu rádio. Tinha o programa de um padre muito bom nesse horário. Terminou a tempo de colocar o feijão. Nunca almoçava depois do meio-dia e meia. Comeu. Lavou a pouca louça. Cochilou um pouco, no sofá da sala, tranqüilamente. Não sabia que seria a última vez.
Acordou com a saliva caindo em uma das mãos. Enxugou o canto da boca. Levantou-se e foi ao banheiro, fazer o que não havia conseguido de manhã. Mijou primeiro, depois lavou as mãos e o rosto. Já era hora de sentar à máquina, onde gastaria o resto do dia.
Com mãos hábeis, manejou o tecido e a linha. O pé marcava o compasso do entra-e-sai da agulha afiada, girando a correia de couro. Ela e a máquina pareciam acopladas de maneira perfeita, pareciam uma coisa só. Mas, neste dia, algo muito estranho aconteceu, algo que nunca havia acontecido: Dona Chica furou o dedo com a agulha de sua máquina! O pequeno pedaço de metal atravessou sua carne com precisão, fazendo o sangue aflorar rapidamente, avermelhando o pano branco que estava sendo manuseado. Ela olhou abismada para o sangue na ponta do objeto afiado que a cosera.
O fato inusitado reavivou uma seqüência de lembranças em Dona Chica. Um turbilhão de memórias que estavam há muito tempo adormecidas, quietinhas, como ela mesma. Lembrou-se de quando aprendia as primeiras lições de costura, com sua mãe, nesta mesma Singer. Lembrou-se dos primeiros trabalhos que lhe renderam alguns trocos e de como isso a deixou orgulhosa de si. Lembrou-se dos dias em que, ainda casada, passava as melhores horas do dia, ao lado de sua máquina, poupando-se do marido. Lembrou-se também da primeira vez que teve de levá-la ao conserto, e ficou com medo ao se deparar com um homem barbudo, rústico, pegando-a com violência e a carregando para dentro da oficina. Lembrou. Eram memórias - imagens. Ela via tudo nitidamente. Ela se entregava à força das imagens.
Levemente, vagarosamente, sua perna começou a descolar da cadeira. Foi um movimento tão sutil, que Dona Chica nem percebeu. A banha que balançava na parte anterior de sua coxa estava completamente no ar. Suas mãos, uma sangrando e outra não, tentavam segurar a mesa, não por perceberem que se afastavam, apenas por reflexo. Dona Chica ainda não se dera conta do que acontecia naquele momento. Seu vestidinho verde, de pano ridículo, rasgou facilmente ao enroscar-se no pedal de metal. A cadeira caiu. Dona Chica estava na horizontal, completamente no ar. Seu corpo foi subindo de pouco em pouco, até alcançar o teto. Quando, lá de cima, ela sacudiu as memórias e olhou para a máquina, viu uma gotinha de sangue cair de seu dedo, sua alma tremeu: Ela estava voando!
Ela não entendia o que estava acontecendo, mas a sensação era boa. Era como se ela houvesse se livrado de todo o peso de sua existência. E mais interessante que isso, era o ponto de vista que ela tinha ali de cima: sua velha casa parecia outra, era mais bela, bem planejada. Ficou orgulhosa. A Singer também não ficava mal. Gostou. Olhou para o lado e deu de cara com a lâmpada. Achou engraçado. E nas primeiras vinte e quatro horas foi assim, ela se divertia com a situação, mas como toda novidade, depois de um tempo, começou a se cansar.
Os dias passavam e ela permanecia ali, na mesma posição. Tentou de todas as maneiras descer e continuar sua vida normalmente, mas tudo em vão. Suas forças diminuíam, a fome era lacerante. Ela estava suja, precisava se limpar. Nada podia fazer. Não gritou por ajuda. Tinha vergonha, pois suas necessidades fisiológicas encontravam-se logo abaixo dela. A roupa também estava suja com seus excrementos. Chorou algumas vezes. Depois se acalmou. Decidiu ser racional e analisar a situação friamente. Chegou a uma conclusão: o melhor a fazer era esperar. Sim! Simplesmente esperar. E foi o que ela fez. Ficou quietinha, no teto de sua sala, esperando a morte chegar. Ficou quietinha, como durante toda a sua vida sempre fizera.
sábado, 2 de agosto de 2008
briguinha
é x
A Religião diz:
é y
Olham as duas
para a Poesia
e perguntam:
x ou y?
e a Poesia:
é 8
Música não se esquece
três palavrinhas
poetizam meu ouvido.
Vai ver é por isso...
"minha linda" ainda
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Quase e tanto faz
domingo, 22 de junho de 2008
terça-feira, 10 de junho de 2008
terça-feira, 3 de junho de 2008
x vidas
um prédio em chamas!
Estavam lá os bombeiros e faziam o possível.
Chegou uma mulher aos prantos e berros a um deles:
_Meu filho está lá! É uma criança de 2 meses de vida!
_Qual andar?
_Quinto!
Heróicamente o homem adentrou o prédio em chamas,
mas chegando lá não encontrou criança alguma.
Também não encontrou o caminho de volta.
A mulher, desvairada, correu até o viaduto
e jogou-se
Foram duas mortes e a criança nem existia: a mulher era doida.
Mas vamos dizer que foram três mortes,
pra garantir o happy ending.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
A falta que você me faz
É tarde da noite e
sem sono
só o que faço é pensar em ti
não te tenho mais em minhas mãos
O hábito de sentir teu sabor
toda manhã
durante o dia todo
a sua presença em mim
Ah, que falta você me faz
Conselho bem intencionado
me diz que posso viver sem você
Que outrora fui feliz
e você não fazia parte da minha vida
Mas fato é que meu peito dói
e a culpa é sua
do tempo que passamos juntos
do tempo que passou em minha boca
Confesso minha fraqueza
hoje minha vontade de você é ainda maior
o desejo é incontrolável
volta pra mim
domingo, 11 de maio de 2008
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Dia de trabalho
pra continuar horizontal
em vão
Ouvido vai esbranquiçando
Olho sangra
Boca sorri
sempre
o tempo todo
Vai fermentando o asco
A marcha do relógio
dita o ritmo do insuportável
Está tudo prestes a transbordar
- Mas!!!
Naquele dia, a tarde olhou para o relógio
e foi que 6 em ponto:
ensepiou-se
ficou mais bonita que foto
deu até gosto de ver
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Delitos Manoelenses
De calças curtas
Pôr freio em cachorro e montar de espora. Pealar porco no quintal. Correr na chuva de prancha. Pelotear passarinhos e soprar no cu dos semimortos a fim de que ressuscitem. Fazer besouro nadar em querosene. Plantar goiabeira com máquina-corpo.* Cangar grilos. Fazer gato cabrestear. Regaçar lagarto assustado. Experimentar se cágado entorta chaira mesmo com o sesso. Dar banho de álcool em urubu e soltar com fogo pra ver incêndio no céu. Enfiar vento no cordão. Destarraxar o traseiro dos gafanhotos. Fazer retinir a luzerna dos vagalumes. Desemendar cachorro com água pelando. Passar taligrama no mato. Fazer barata dormir de costas. Assobiar com o subaco. Esfregar pimenta no olho do irmãozinho. Matar bentevi a soco. Capar gato com caco de vidro. Sondar as priminhas no banho. Botar saracura na soga pra chamar chuva. Enfiar ferro em brasa na cona das jacaroas. Andar de árvore no corixos. Espremer sumo de laranja no olho do sapo pra ver se arregala o horizonte. Arrolhar galinhas com sabugo. Botar coração de anu-branco torrado na cabeça da namorada pra fim do corpo dela amolecer. Cortar procissão de formiga na força do mijo. Ouvir lesma foder na pedra.
*Plantar goiabeira com máquina-corpo seria defecar no campo ou no quintal depois de comer goiaba com caroço. Dessa forma, aparecem pelos campos muitos pés de goiaba plantados com o corpo. (N. do Autor)
terça-feira, 8 de abril de 2008
domingo, 30 de março de 2008
quarta-feira, 19 de março de 2008
De volta ao trabalho...
Tah bom, acredito nisso... mas o Filipinho também me falou pra deixar de ser vagabundo e escrever, mesmo que eu escreva só merda.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Sede e cansaço
de coisas amargas:
boca de puta, vodka barata
e filtro vermelho
Sinto sede
de coisas sujas:
sarjeta urinada, notas de 1 real
e ambientes engordurados
Vou sedento em busca de saciedade
e como uma grande lesma
escorro minha saliva grossa por onde passo
ando cansado da assepsia cotidiana
Tãogente
e, no entanto, tão pouca me atingido
Talvez eu esteja tímido demais
Ando medroso
evito o toque
Mas o fato é que por mais que eu desvie
e me contorça
e me afaste
o toque acontece
É apenas questão de tempo
até que as marcas apareçam
Me resta esperar:
eis meu atual estado
de corpo
quando a concisão da palavra não me bastar fui ser conciso na vida
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A vergonha de cada privilégio encarnado que nada muda
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Continuo insistindo nas imagens Investindo na sonoridade Lambendo o grelo dos bons modos Valorizando o sorriso, sempre! Mandando a métrica à...
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cigarro e o mendigo criança e o brinquedo ser sem ter ter sem ser só ser só ter as vezes, tudo isto só entorta o estar só mesmo...