sexta-feira, 18 de abril de 2008

Delitos Manoelenses

Fica difícil cometer delitos à altura depois de ler coisas como essa... Com vocês, mestre Manoel de Barros:

De calças curtas

Pôr freio em cachorro e montar de espora. Pealar porco no quintal. Correr na chuva de prancha. Pelotear passarinhos e soprar no cu dos semimortos a fim de que ressuscitem. Fazer besouro nadar em querosene. Plantar goiabeira com máquina-corpo.* Cangar grilos. Fazer gato cabrestear. Regaçar lagarto assustado. Experimentar se cágado entorta chaira mesmo com o sesso. Dar banho de álcool em urubu e soltar com fogo pra ver incêndio no céu. Enfiar vento no cordão. Destarraxar o traseiro dos gafanhotos. Fazer retinir a luzerna dos vagalumes. Desemendar cachorro com água pelando. Passar taligrama no mato. Fazer barata dormir de costas. Assobiar com o subaco. Esfregar pimenta no olho do irmãozinho. Matar bentevi a soco. Capar gato com caco de vidro. Sondar as priminhas no banho. Botar saracura na soga pra chamar chuva. Enfiar ferro em brasa na cona das jacaroas. Andar de árvore no corixos. Espremer sumo de laranja no olho do sapo pra ver se arregala o horizonte. Arrolhar galinhas com sabugo. Botar coração de anu-branco torrado na cabeça da namorada pra fim do corpo dela amolecer. Cortar procissão de formiga na força do mijo. Ouvir lesma foder na pedra.

*Plantar goiabeira com máquina-corpo seria defecar no campo ou no quintal depois de comer goiaba com caroço. Dessa forma, aparecem pelos campos muitos pés de goiaba plantados com o corpo. (N. do Autor)

quarta-feira, 19 de março de 2008

De volta ao trabalho...

"É preciso um acúmulo de forças para dar à luz uma estrela cintilante!"

Tah bom, acredito nisso... mas o Filipinho também me falou pra deixar de ser vagabundo e escrever, mesmo que eu escreva só merda.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Sede e cansaço

Sinto sede
de coisas amargas:
boca de puta, vodka barata
e filtro vermelho

Sinto sede
de coisas sujas:
sarjeta urinada, notas de 1 real
e ambientes engordurados

Vou sedento em busca de saciedade
e como uma grande lesma
escorro minha saliva grossa por onde passo

ando cansado da assepsia cotidiana

Tãogente

Tanta coisa tem me tangido ultimamente
e, no entanto, tão pouca me atingido

Talvez eu esteja tímido demais
Ando medroso
evito o toque

Mas o fato é que por mais que eu desvie
e me contorça
e me afaste
o toque acontece

É apenas questão de tempo
até que as marcas apareçam

Me resta esperar:
eis meu atual estado
de corpo

quando a concisão da palavra não me bastar fui ser conciso na vida